domingo, 31 de março de 2013

Enquanto eles dormem

"Enquanto eles dormem , eu inauguro sozinha uma nova receita de bolo . Ligo a memória em fogo alto . Coloco numa tigela os pedacinhos da tristeza e os fiapos de alegrias e bato até formar uma camada uniforme de desejos . Mexendo devagar , vou vendo a vida passar . Então passam hóstia , sangue , aliança , mágoas , mentiras e culpas . Despejo na fôrma dessa noite mais longa os abraços que sempre guardei mais apertados . Levo ao ar preaquecido dos tempos distantes e asso por mais ou menos 10 anos . Espero esfriar para desenformar uma nova vida sobre o prato do dia . Preciso provar sozinha o doce silêncio e emudecer para outras perguntas que não sejam as minhas . Papos-de-anjo enfeitam essa outra noite em mim . Fios de ovos que eu uso para bordar de novo um outro gosto pela arte de me conhecer melhor .
Enquanto eles dormem , eu troco de roupa na frente do espelho . Recebo visitas das amigas que sempre voltam a tempo de falar uma outra vida . Arrumo as malas . Escrevo cartas , que eles poderão ler pela manhã :
Paulo querido ,
Ainda gosto de escrever no escuro , à luz de velas , como nos tempos proibidos de menina e tradicional família mineira , que por isso mesmo vou dizer tudo da forma mais simples : estou cansada ! E cuido em escrever palavras bordadas como a única caligrafia que possuo , a de ser mulher até na letra . Hoje vou visitar minha mãe para ver se consigo aprender tudo de novo , de um jeito que só ela vai poder me ensinar e eu vou fazer ao contrário . Deve dar certo,já que o avesso das coisas também revela . Não me espere para os jantares . Cuide do Vicente . Sinceramente , Sylvia ."

Trecho do livro Enquanto eles dormem , de Celso Sisto _ A mãe
Leio sempre que a saudade aperta...

Mas não devia....

A gente se acostuma com as coisas da vida de acordo com a "tradição" , mas chegando a um determinado momento , enxergamos a realidade e nos questionamos sobre a verdade das coisas .
Nos acostumamos a ser certinhos , politicamente corretos , tementes a Deus e cumpridores das nossas obrigações sociais . Chatice isso sim !!!
O certo já não me parece tão certo como antes ....
A gente se acostuma com a solidão e a falta das pessoas que amamos , sofrendo , buscando fugas que tentamos à todo custo tapear com desculpas rotas ... Devemos sempre parecer fortes e bem resolvidos com as questões do coração .... mas pensando bem , não quero ser forte e determinada , muito menos conformada , quero mesmo é chutar o pau da barraca , bater boca com o infortúnio , xingar e esbravejar até a voz sumir ....
A gente se acostuma com a ausência , com o desafeto , com o desrespeito , com a secura alheia ... mas não devia .
A gente se acostuma com a obrigação de escolher "um lado" , ser isso ou aquilo , gostar de A ou de B , sempre com a obrigatoriedade de nos "definir" , mas não devia ...
Eu me acostumo com muita coisa , mas quando acordo .... sou furacão em campo aberto . Eu sei , não devia , mas ...